Saúde não é só a ausência de doença. Saúde é dignidade, afeto, comida no prato, chão seguro pra pisar. Saúde é memória, é fé, é saber ancestral. E quando a gente fala de saúde mental da população negra, quilombola, periférica, não dá pra separar o cuidado do território.
Eu falo desde o Vale do Jequitinhonha, onde aprendi que cura também vem das mãos da avó que benze com arruda, da parteira que conhece o tempo do corpo, da reza que embala a alma.
Frantz Fanon já dizia: o racismo não é só violência social — é uma estrutura que adoece a subjetividade.
Neusa Santos Souza nos mostra que tornar-se negro nesse país é atravessar um sofrimento psíquico profundo. E Milton Santos nos lembra: território é mais do que lugar — é espaço vivido, cheio de relações, dores e potências.
Nosso povo resiste, mesmo adoecido. Mas a psicologia precisa mudar de rota. Precisa sair da neutralidade, olhar o território, escutar o corpo coletivo.
Como diz Sueli Carneiro, o racismo é um determinante social da saúde — e o cuidado precisa ser antirracista.
Eu acredito numa psicologia de encruzilhada:
que une saber acadêmico e saber popular,
que respeita o tambor e o CAPS,
que escuta o trauma, mas também reconhece a potência.
Saúde mental é também projeto do mundo.
E onde o território é cuidado, o povo floresce.






