Autorregulação emocional: entre marés e escrevivências
Autorregular-se emocionalmente é como aprender a navegar nas próprias marés internas. Há dias em que as águas estão calmas, e seguimos sem esforço. Em outros, as ondas se agitam, nos puxam para baixo, e tudo o que podemos fazer é boiar, respirar fundo e esperar a corrente mudar. A autorregulação não significa impedir a tempestade, mas aprender a velejar dentro dela. Como mulher negra, psicóloga e filha da terra, aprendi que nossas emoções são também histórias – narrativas que atravessam o tempo, corpos e gerações. Há dores que não são só minhas, há medos que vêm de longe, há resistências que se constroem na coletividade. Conceição Evaristo nos ensinou sobre a escrevivência, essa escrita que não se descola da experiência. E é assim que enxergo a autorregulação: um exercício contínuo de escuta, expressão e cuidado.
Na psicologia, falamos sobre estratégias para regular emoções – respiração, mindfulness, reestruturação cognitiva. Tudo isso é válido. Mas e o que dizer do poder de uma roda de conversa? De um abraço que nos ancora? De um tambor que pulsa no mesmo ritmo do coração? Autorregulação também é memória, também é pertencimento.
Não se trata de controlar emoções, mas de criar espaços onde elas possam existir sem nos afogar. Algumas dores, como as ondas, precisam bater na pedra até se tornarem espuma. Outras, como a correnteza, precisam de margem para seguir seu curso. Aprender a lidar com nossas emoções é, no fim das contas, permitir que nossa escrevivência flua sem represálias, mas com direção.
E você, como navega suas próprias marés?






